Saúde

Obesidade amplia risco de infecções graves e pode responder por uma em cada dez mortes infecciosas no mundo, aponta estudo
Segundo os pesquisadores, cerca de 10% das mortes infecciosas no planeta podem ser atribuídas ao excesso de peso, proporção que chegou a 15% durante o auge da pandemia de Covid-19
Por Laercio Damasceno - 10/02/2026


Pixabay


Um amplo estudo internacional publicado nesta semana na revista The Lancet lança nova luz sobre um elo já suspeitado, mas até agora pouco mensurado: a obesidade adulta não apenas agrava doenças crônicas, como também aumenta de forma consistente o risco de hospitalização e morte por infecções. Segundo os pesquisadores, cerca de 10% das mortes infecciosas no planeta podem ser atribuídas ao excesso de peso, proporção que chegou a 15% durante o auge da pandemia de Covid-19.

A análise reuniu dados de mais de 540 mil adultos acompanhados por até duas décadas em coortes da Finlândia e do Reino Unido, cruzando registros hospitalares e de mortalidade com indicadores de obesidade. Foram examinadas 925 doenças infecciosas, de bactérias a vírus, parasitas e fungos — um recorte inédito em escala e diversidade.

Os resultados mostram um efeito dose–resposta: quanto maior o grau de obesidade, maior o risco. Pessoas com obesidade grave (IMC acima de 40) apresentaram risco quase três vezes maior de hospitalização ou morte por infecções em comparação a indivíduos com peso considerado saudável. Mesmo a obesidade em graus mais leves elevou o risco em cerca de 70%, após ajustes por idade, sexo, tabagismo, nível socioeconômico e doenças prévias.

“A obesidade deve ser entendida como um fator de risco transversal para infecções graves, não restrito a patógenos específicos”, afirma a epidemiologista Solja T. Nyberg, da Universidade de Helsinque, autora principal do estudo. “Nossos achados sugerem que ela compromete a resposta do organismo de forma ampla, afetando diferentes sistemas de defesa”.

Um problema antigo, um impacto renovado

A relação entre obesidade e infecções ganhou visibilidade durante a pandemia de Covid-19, quando pacientes com excesso de peso figuraram entre os mais vulneráveis a quadros graves. Mas o novo trabalho demonstra que o fenômeno antecede o coronavírus e se estende a infecções respiratórias, cutâneas, gastrointestinais e urinárias, entre outras.

Do ponto de vista biológico, os mecanismos são conhecidos: inflamação crônica de baixo grau, resistência à insulina, alterações hormonais e prejuízos na função de células do sistema imunológico, como linfócitos T e células NK. “A obesidade cria um ambiente metabólico que favorece a persistência de patógenos e reduz a eficiência da resposta imune”, explica Mika Kivimäki, coautor do estudo e professor do University College London.

Ao combinar os dados clínicos com estatísticas do Global Burden of Disease, os autores estimaram que, em 2023, cerca de 600 mil mortes por infecções no mundo estiveram associadas à obesidade. Durante a pandemia, esse número chegou a 2 milhões. As taxas variam de forma expressiva entre regiões: Oriente Médio e Norte da África apresentaram as maiores proporções atribuíveis, enquanto o Sul da Ásia registrou os menores percentuais, refletindo diferenças na prevalência de obesidade e no perfil epidemiológico.

No Brasil, onde mais de um quarto da população adulta vive com obesidade, especialistas avaliam que os resultados reforçam a necessidade de integrar políticas de prevenção do excesso de peso às estratégias de controle de doenças infecciosas. “Trata-se de um impacto silencioso sobre o sistema de saúde, que aumenta internações, custos e mortalidade”, afirma um pesquisador do tema ouvido pela reportagem.

Embora o estudo não prove causalidade direta, a robustez dos dados e a consistência entre diferentes populações fortalecem o argumento de que reduzir a obesidade pode salvar vidas também no campo das infecções. Os autores observam ainda que a perda de peso ao longo do acompanhamento esteve associada a uma diminuição do risco, ainda que não o eliminasse por completo.

“Se a tendência global de aumento da obesidade continuar, sua contribuição para a carga de doenças infecciosas tende a crescer nas próximas décadas”

Naveed Sattar, da Universidade de Glasgow 

O estudo reacende o debate sobre a obesidade como um problema de saúde pública de múltiplas dimensões — não apenas ligada a diabetes e doenças cardiovasculares, mas também à capacidade coletiva de enfrentar surtos e epidemias. Em um mundo marcado por crises sanitárias recorrentes, o excesso de peso deixa de ser apenas um fator individual e passa a integrar o tabuleiro das grandes ameaças globais à saúde.


Referência
Obesidade em adultos e risco de infecções graves: um estudo multicêntrico com estimativas da carga global. The Lancet Publicado em: 9 de fevereiro de 2026. Solja T NybergFilipe FrankSara Ahmadi-AbhariJaana PenttiJussi VahteraJenni Ervastie outros. DOI: 10.1016/S0140-6736(25)02474-2

 

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